Desde o “Tocar no Ponto” até ao “Touchpoint”

(João Manuel Rosado de Miranda Justo, Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, Junho de 2022)

            Estávamos no ano letivo de 1981/1982 e decorria o último ano da Licenciatura em Psicologia. Nesse final de curso, para os alunos da Psicologia Clínica (Ramo B, como naquela altura de dizia), acontecia uma cadeira designada “Consulta Psicológica da Criança e do Adolescente”. Nessa cadeira, a já falecida Professora Maria Rita Mendes Leal fazia questão de trazer até nós os autores psicodinâmicos que afinaram a pontaria da psicanálise na direção da criança, do desenvolvimento infantil e, entre outras coisas, na direção da psicoterapia com crianças.

Kleiniana de inspiração e de formação (tinha feito análise, em São Paulo, com Roberto de Azevedo, psicanalista Kleiniano da segunda geração), a Professora Rita discutia e partilhava connosco textos clássicos da psicoterapia psicanalítica não só com crianças mas, também, com adolescentes. Entre estes textos, sobressaía um conjunto de casos clínicos reunidos num livro intitulado “Da Pediatria à Psicanálise”. Ficámos a saber que o autor do livro se chamava Winnicott, que a sua origem profissional era a pediatria e, mais importante ainda, que se tratava de um “Kleiniano disfarçado”; a Professora Rita fazia questão de mostrar como Winnicott conseguira rescrever a psicanálise da infância sem os exageros da linguagem psicopatológica Kleiniana.

Entusiasmado com aqueles relatos clínicos e, sobretudo, com o sucesso clínico atestado por follow-ups testemunhados em correspondência postal da época, achei que aquelas descrições iam ajudar-me a responder a uma pergunta persistente: “Como é que se faz?”  Depois de ler aqueles resumos clínicos, concluí que, possivelmente, aquilo que Winnicott tinha feito e aquilo que tinha alcançado se condensava numa mensagem bastante simples; “Basta tocar no ponto!”; no ponto certo, é claro e da maneira certa, também é claro!

Várias décadas depois de terminar o curso, encontrei-me no Hospital de Santa Maria assistindo a um curso organizado pelo Professor Gomes-Pedro. Tratava-se do “Curso Intensivo em Touchpoints” no qual participava o autor dos “Touchpoints”, chamado Berry Brazelton e, tal como Winnicott, com uma origem profissional em pediatria. No encerramento do curso, estamos em clima de festa e uma colega em formação, a Dra. Rita Silveira Machado, formulou uma questão: “Perguntem-lhe quais são as referências dele”. Alguém traduziu a pergunta e Brazelton respondeu: “Winnicott is the author I feel most close!” Fiquei, nesse dia, a lembrar-me da minha conclusão de estudante acerca da técnica Winnicottiana ilustrada em “Da Pediatria à Psicanálise” e, ao mesmo tempo, a querer fazer uma ligação com os “Touchpoints” de Brazelton. Entretanto, já passaram mais algumas décadas e acho que já choveram em mim mais algumas conclusões de estudante. A teoria de Brazelton não é importante só porque prevê a ocorrência de “ruturas desenvolvimentistas e maturativas” no decurso do crescimento humano. Também é importante porque propõe que, nesses momentos de rutura, a base da intervenção seja o “tocar no ponto”. Também é importante por mostrar que a reorganização posterior à intervenção é tão natural quanto as tais “ruturas desenvolvimentistas e maturativas”. Para além de muitas outras importâncias, não sou capaz de deixar de pensar que estas intervenções baseadas em “tocar no ponto” são muito apropriadas para muitas das circunstâncias diárias das pessoas que nos procuram devido ao elemento “nova relação”. Acho que, se regressarmos aos casos clínicos resumidos por Winnicott, vamos encontrar sementes desse tipo de objetivo terapêutico que é criar uma “nova relação”. Igualmente, penso que foi isso que vi Brazelton produzir nas consultas que operou nos vários momentos em que se dirigiu ao Hospital de Santa Maria para colaborar nas ações de formação organizadas pelo Professor Gomes-Pedro. Só mais uma recordação, acho que era isso que estava na mente do Professor António Coimbra de Matos quando convidou o Professor Gomes-Pedro para fazer uma conferência sobre “Winnicott & Brazelton” no âmbito das ações formativas da APPP.

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