Um Novo Lar, Longe do Lar – Pensar Sobre a Dinâmica da Adoção, numa Perspetiva Winnicottiana

Um Novo Lar, Longe do Lar – Pensar Sobre a Dinâmica da Adoção,
numa Perspetiva Winnicottiana

Pensar sobre a adoção transporta-nos à infância e põe-nos em contacto com o sentimento de pertença a uma família. Entendo que compreensão psicológica profunda de uma pessoa não pode fazer-se sem a compreensão da sua própria história. Faz-nos invocar as mais antigas imagens de satisfação e de insatisfação de bons e maus pais, direcionando-nos para a matriz do que cada um de nós poderá pensar sobre a experiência de cuidado, de amor, de segurança e de proteção vivida. Acorda-nos as mais intensas e precoces experiências e vivências emocionais, tornando o tema complexo, aspeto que explica a subjetividade com que tantas vezes é tratado, por envolver aspetos individuais e sociais da natureza humana. Diz respeito à primeira relação de um ser humano com a mãe, com o pai e também com todas as pessoas que envolvem a família, pelas relações que com elas vão sendo estabelecidas. São estas interações que vão permitir ao ser humano tomar consciência de si próprio, integrar-se e compreender-se no seio de uma relação que se afigura primordial, sem a qual o indivíduo não subsiste, não evolui e cuja complexidade vai crescendo no sentido de uma maior diferenciação e saúde. Winnicott, possibilitou-nos uma compreensão mais profunda da adoção ao ter por base a Teoria do Amadurecimento Humano, formulando novas respostas a problemas e questões relacionadas com o tema, partindo do trabalho desenvolvido como consultor no Plano de Evacuação Governamental, no período da 2º Guerra Mundial. Ao aceitar estas funções, enfrentou a confusão gerada pela desintegração da vida familiar, assim como os problemas da deprivação e da delinquência. O seu trabalho com crianças deprivadas permitiu-lhe uma dimensão inteiramente nova ao seu pensamento e à sua prática clínica, para além de afetar os seus conceitos básicos sobre o crescimento e desenvolvimento emocionais. Para Winnicott (1956), uma criança torna-se deprivada quando é destituída de algum aspeto essencial de sua vida em família. O fator de maior relevo que acontece na adoção, na sua perspetiva, não é determinado pelas fantasias dos pais adotivos ou dos seus desejos, mas sim, na capacidade que a família adotiva tem de cuidar de uma criança, adaptando-se às suas necessidades ao longo do seu amadurecimento. Compreender a adoção apoiando-nos na sua teoria, implica considerar que os pais adotivos serão capazes de “tratar” da criança que já sofreu deprivação, observando-se na adoção uma forma de tratamento que fornece à criança um ambiente confiável, que lhe possibilita cuidados especiais, que não ignoram os traumas anteriormente vividos por ela. A criança precisa ganhar confiança no Novo Ambiente, na sua estabilidade e na sua capacidade de objetividade antes de se desfazer das suas defesas. As palavras vivas de Winnicott, nos seus textos, permitem-nos sonhar com a possibilidade de superação e reparação, que o novo encontro humano, verdadeiro, de confiança e de cuidado, poderá proporcionar, ao criar a oportunidade para a retomada da esperança e de um sentido de Ser. “Quando ajudamos pais a ajudarem os seus filhos estamos, na realidade, a ajudá-los também em relação a si mesmos” (Winnicott, 1956).

Alexandra Luz Clara

5 1 vote
Article Rating
Subscribe
Notify of

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

0 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
View all comments
0
Would love your thoughts, please comment.x