Dia Mundial do Combate ao Bullying

Assinala-se hoje o Dia Mundial do Combate ao Bullying, fenómeno de enorme complexidade, que tem muitas camadas que não são visíveis à superfície dos acontecimentos que todos vamos conhecendo.
Quer do lado de um Bully, quer do lado de uma vítima, há uma dificuldade na elaboração da agressividade, causada por falhas ambientais que interferiram com a continuidade de ser de uma criança e com a integração desta força vital.
Em Winnicott, a agressividade primitiva não está associada à maldade ou a intencionalidade, mas sim à capacidade motora que permite ir ao encontro de si e do mundo. Quando o ambiente em torno do bebé e da criança é suficientemente bom e capaz de acolher esta força também com vitalidade e sem retaliação, a agressividade vai-se integrando e vai ficando ao serviço da possibilidade de criação de um mundo pessoal, cada vez mais diferenciado, onde a criança vai conquistando espaço, percebendo ao mesmo tempo, o impacto da sua presença física, da sua força e dos seus instintos. É a partir daqui e com a ajuda de quem a rodeia, que a criança vai também tomando posse dos seus atos, responsabilizando-se por eles e procurando repará-los, à medida que amadurece.
Quando o ambiente falha neste suporte, a agressividade primitiva não se integra, não tem oportunidade de ser experimentada de forma segura. Assim, nunca será sentida como potencial criativo, que implica uma destrutiviadade subjetiva, sujeita a reparação e, por isso a integração. Sem isso, o potencial criativo transforma-se em destrutividade efetiva, sem lugar na vida compartilhada nem no processo maturacional. A Agressividade, nestas situações, dá lugar à violência ou à submissão.
Nas situações de bullying, que implicam que haja dois lados considerados pares no seu nível de desenvolvimento, juntam-se na verdade duas vítimas a quem foi negada a possibilidade de adequada integração da agressividade, devido a falhas ambientais suficientemente significativas, ao ponto de interromperem a continuidade de ser de cada um. Comummente, a vítima pode mais tarde ocupar o lugar de agressor e vice versa. Ambos estão subjugados a uma destrutividade que ora ataca, ora submete, sem lugar para a reparação, o que faz com que não seja um acontecimento isolado no tempo, mas sim mantido e perpetuado, quer por quem agride, quer por quem é violentado.
O bullying, ao contrário de agressões pontuais que embora graves ficam mais circunscritas, estende-se no tempo, podendo por isso deixar marcas profundas e agravar fragilidades já existentes na constituição das pessoas envolvidas e por isso deve ser olhado como fenómeno de extrema importância, quer ao nível da prevenção, quer na atuação reparadora.
Helena Mourão
