III JORNADAS WINNICOTTIANAS – WINNICOTT NA ATUALIDADE

III JORNADAS WINNICOTTIANAS – WINNICOTT NA ATUALIDADE
UNIVERSIDADE EUROPEIA, LISBOA | 29 e 30 de Maio de 2026
SESSÃO DE ENCERRAMENTO | VOANDO SOBRE AS JORNADAS
“Ser contém em si o fazer. O bebé é também o que faz” (Belo, M. Rosário, 2026). Foi com esta ideia que Maria do Rosário Belo nos interpelou na sua Conferência de Abertura, intitulada Gesto e Criatividade na Preservação e na Continuidade do Humano. Trouxe-nos a sua leitura pessoal e o seu pensamento original aceca da “integração do fazer primitivo” (Belo, M. Rosário, 2026), na Dependência Absoluta, propondo um desdobramento dos Elementos Femininos Puros e dos Elementos Masculinos Puros (Winnicott, 1971) em “elemento essência”, ligado ao ser e “elemento agência”, ligado ao fazer (Belo, M. Rosário, 2026). A partir desta brilhante conferência fica muito para pensarmos e para investigarmos.
Na 1ª Mesa, intitulada A Urgência de Preservar o Humano, Rita Pereira Marques ofereceu-nos uma reflexão a partir da obra prima “A Jangada de Medusa” de Théodore Géricault (1791-1824), que culminou num apelo para uma revolução nas políticas do cuidado, com a integração da natureza num “ambiente mais do que humano: um cuidado ecosófico” (Pereira Marques, R., 2026). A sua comunicação, intitulada A Emergência do Novo Homem: O cuidar ecosófico como ética e estratégia de cura para a humanidade, trouxe-nos uma proposta de reflexão acerca da “teia ecológica de sustentação da vida” (Pereira Marques, R., 2026). Moisés Ferreira apresentou um trabalho intitulado «“Onde tudo é divino como convém ao real”: Da técnica como lugar de redenção à afirmação global de uma mundivisão cosmocêntrica». Nele relembrou-nos que foram a vulnerabilidade e uma certa inaptidão do homem em relação a outras espécies que nos levou à cultura e ao uso de ferramentas, de utensílios e de técnicas. Ao longo dos tempos, a colaboração entre a técnica e a ciência encaminhou a humanidade para a tecnociência e, hoje, a técnica encontra-se “na paradoxal circunstância de ter de encontrar soluções para mitigar os graves problemas que ela mesma originou” (Ferreira, M., 2026). Coube-lhe trazer-nos uma reflexão, a partir do pensamento e da obra de Winnicott, sobre novas possibilidades para tornar mais equilibrada a relação do ser humano com a técnica. Nesta 1ª Mesa, tivemos ainda o prazer de escutar o Prof. Joaquim Ferreira que nos trouxe a seguinte pergunta: As Doenças Neurodegenerativas são Preveníveis? O seu saber, profundamente ancorado na investigação e numa vastíssima experiência clínica, veiculou a esperança e a aposta na prevenção das doenças neurodegenerativas que, com o aumento da esparança de vida, já começam a constituir-se como a 1ª causa de morte, ultrapassando as doenças cardiovasculares e as doenças oncológicas.
A Maturidade da Democracia foi o título da 2ª Mesa das nossas Jornadas. Helena Mourão já nos habituou (e esta vez não foi exceção) à qualidade teórica dos seus textos e à beleza da sua escrita. Por ocasião destas Jornadas trouxe-nos uma comunicação intitulada Amadurecimento e Democracia: o lugar da existência. Partindo da Teoria do Amadurecimento de D. W. Winnicott e sobrevoando-a desde a Dependência Absoluta até à Adolescência, passando pela Capacidade de Concern, Helena Mourão foi fazendo pontes entre a saúde e a doença (imaturidade) das sociedades em que vivemos, chamando a atenção para a necessidade de sermos cuidadosos com a Democracia “enquanto a temos em mãos”, pois “ela é o lugar da existência” (Mourão, H. 2026). Esta 2ª Mesa teve um formato diferente das outras, que revelou ser um formato espacialmente interessante e, sem dúvida, a repetir. Os outros dois oradores – Pedro Cordeiro e Maria Castello Branco, do Jornal Expresso – iniciaram um Mano-a-Mano em formato de tertúlia sobre o tema da Democracia e a partir do texto da Helena Mourão. Este mano-a-mano lançou depois o debate para a audiência, estendendo a tertúlia ao auditório de forma muito interativa e dinâmica.
A fechar o 1º dia tivémos a 3ª Mesa: Conhecer a Saúde para Cuidar a Patologia – Homenagem a José Carlos Coelho Rosa. “José Carlos Coelho Rosa, Psicanalista de grande inteligência e profunda sensibilidade, dedicou a sua vida à compreensão da saúde como via fundamental para pensar o sofrimento e o adoecimento humano. O seu legado permanece vivo entre nós, inspirando – com a presença da sua vida nas nossas – a nossa clínica, o nosso pensamento e o cuidado que temos na nossa profissão. Homenagear José Carlos Coelho Rosa é também afirmar a atualidade do seu pensamento e presença — um convite a escutar, cuidar e compreender o humano (tal como em Winnicott) a partir das suas várias possibilidades de saúde” (Belo, M. Rosário, 2026). Maria José Azevedo apresentou a sua comunicação intitulada Crescer com Saúde: o Legado do Psicanalista. Homenagem a José Carlos Coelho Rosa, partilhando connosco algumas ideias sobre as quais ambos conversaram entre 2022 e 2024. Irene Borges Duarte, colega de faculdade e amiga de longa data de José Carlos Coelho Rosa, trouxe-nos um texto simultaneamente emocionante, divertido e íntimo sobre a vida e a obra de José Carlos Coelho Rosa: Coelho Rosa: da Fantasia à Realidade, com a Psicanálise. Relembrou os primórdios dos seus interesses pela investigação sobre a Personalidade e a Orientação Profissional e Vocacional com o surgimento, nos anos 80 do interesse pela Psicanálise: “gostava de brincar e usava a fantasia como parte importante da sua relação, sempre aberta e generosa, com o mundo. Acho que de aí surgiu a decisão de chegar aos confins da personalidade – ou da alma humana – pela via poderosa da Psicanálise” (Borges Duarte, I., 2026). Irene Borges Duarte teceu depois algumas considerações teóricas sobre o trabalho de José Carlos Coelho Rosa, dividindo-as em 3 pontos:
1) A auto-fenomenologia de um trajecto: “com a simplicidade de quem fala do fundo da sua humanidade, Coelho Rosa soube mostrar, de uma assentada, como quem não quer a coisa, não só uma compreensão do seu próprio percurso humano, mas também do entrosamento de vidas, encontros e leituras do sentido desse todo que nos é dado sentir e elaborar, ao longo do nosso tempo” (Borges Duarte, I., 2026).
2) Uma ideia abrangente de saúde (mental): “o nosso autor … propõe uma abordagem que enfatiza a saúde mental, ao invés de focar exclusivamente na patologia” (Borges Duarte, I., 2026).
3) A atenção primordial à primeira infância e a aproximação a Winnicott: “a questão ou preocupação essencial parece-me ter sido a da comunicação, que liga o bebé (e o infante) aos pais (acentuando sempre o plural e não a singularidade da relação maternal), na génese de todos os processos posteriores, na sua evolução saudável ou patológica” (Borges Duarte, I., 2026).
No 2º dia das nossas Jornadas, a 4ª Mesa intitulada A Regulação das Responsabilidades Parentais em função do Desenvolvimento da Criança convidou-nos a refletir sobre o estado da arte do nosso sistema jurídico em matéria de Regulação das Responsabilidades Parentais. Lia Nogueira apresentou um trabalho a partir da Teoria do Amadurecimento de D. Winnnicott com uma reflexão pertinente acerca da residência alternada em função do desenvolvimento da criança e chamando a atenção para a necessidade de formação de todos os agentes decisores nesta matéria (Juízes, Advogados, Técnicos de Apoio ao Tribunal, etc..). “O conceito.. de ser o ambiente externo o provedor das condições essenciais e fundamentais à estruturação da personalidade e constituição do eu … impacta eminentemente na necessidade de conhecimento destes fatos pelos decisores no que respeita à Regulação das Responsabilidades Parentais. É na identificação desta necessidade e na demanda de criar caminhos de articulação com o sistema judicial, de forma a motivar a jurisdição a melhor conhecer o bebé e a criança em desenvolvimento, que surge a presente reflexão” (Nogueira, L., 2026). Inês Malta do Núcleo de Assessoria Técnica ao Tribunal – Tutelar Cível (SCML) trouxe-nos um trabalho em co-autoria com Rosa Varela intitulado A Intervenção da Assessoria Técnica ao Tribunal na Coparentalidade, em Processos Tutelares Cíveis. Partilhou connosco a experiência de uma equipa que se dedica à difícil tarefa de melhorar a comunicação parental no conflito. “Embora o vínculo conjugal termine, o vínculo parental permanece, exigindo que os adultos reconstruam uma coparentalidade funcional capaz de responder às necessidades emocionais e desenvolvimentais dos seus filhos” (Malta, I. e Varela, R., 2026). A Juiz Conselheira do Supremo Tribunal de Justica, Clara Sottomayor, apresentou uma reflexão sobre Os Direitos das Crianças na Convenção de Haia de 1980 sobre os Aspetos Civis do Rapto Parental, trazendo-nos o exigente desafio de pensar sobre a aplicabilidade de uma Lei que nem sempre parece cumprir o Superior Interesse da Criança, sobretudo numa altura em que parece estar instalada uma “ideologia da co-parentalidade” (Sottomayor, C., 2026).
A 5ª Mesa, intitulada O Corpo Esquecido, brindou-nos com o trabalho de Catarina Rodrigues intitulado “Talvez possa começar a existir a partir de agora, que sei que nunca existi”. A sua sensibilidade clínica e a sua robustez teórica arrebataram-nos com a apresentação de um caso clínico que guardava nas sensações corporais a verdade do acontecido. “A importância do holding na relação terapêutica torna possível a tomada de consciência, elaboração e integração no self do trauma precoce – que aconteceu antes que existisse uma mente madura para o reconhecer e elaborar –, e a construção, a partir de um “novo começo”, da possibilidade de se existir como um Eu” (Rodrigues, C., 2026). João Costa recordou João dos Santos com uma conversa tão simples quanto sábia acerca da Concavidade Natural do Psicomotricista. Ensinou-nos a “estender as mãos à criança” mas não sem antes nos deixarmos observar por ela. Na concavidade do psicomotricista/psicanalista, que escuta e observa “do canto do olho…enquanto tem ali umas coisas para fazer”, João Costa coloca as hipóteses diagnósticas com a humildade de quem “não sabe” e quer descobrir os “centros de interesse da criança” para, como ela, construir uma aliança terapêutica que é também – e sempre – uma aliança com os pais. Ainda nesta mesa, Conceição Marques Silva, psicoterapeuta corporal, apresentou uma comunicação intitulada Ecos Emocionais: escutar o corpo para compreender a mente, trazendo-nos uma psico-pedagogia para a espontaneidade, com o corpo como a parte visível do insconsciente. Propôs-nos uma reflexão sobre aquilo que “o corpo revela, sustenta e expressa – mesmo quando não é escutado” Marques Silva, C., 2026).
Na 6ª Mesa, intitulada Salva-se quem for criativo, Duarte Gatinho falou-nos sobre Reação vs Criatividade: o que é realmente ser criativo? Falou-nos da criatividade originária, da comunicação silenciosa e do relaxamento criativo versus o alerta reativo e chamou a atenção para uma comunicação que pode ser também reação e fuga. João Pedro Dias brincou com as palavras como só ele sabe fazer e deliciou-nos com a apresentação de uma vinheta clínica, onde mostrou como “a liberdade do paciente nasce da liberdade do analista” (Dias, J.P., 2026). Na sua comunicação, intitulada Psicanálise sem Mestre, definiu a Psicanálise como “uma mudança atravès da intimidade… a mudança do analista ao serviço da mudança do analisando, no caminho de se tornar analista de si-mesmo” (Dias, J.P., 2026). A fechar esta mesa Tânia Gaspar apresentou um trabalho intitulado Burnout: Uma Pandemia. Trouxe-nos a sua visão e a sua abordagem winnicottiana à intervenção nas organizações e nas empresas, promovendo ambientes de trabalho saudáveis.
A fechar as nossas Jornadas com “chave de ouro”, tivemos uma conferência de Zeljko Loparic, intitulada Os Fronteiriços de Winnicott. Nela o autor ofereceu-nos um estudo da teoria winnicottiana dos distúrbios fronteiriços, definindo-os como “patologias nas quais o núcleo do distúrbio é do tipo pré-EU SOU (psicótico), mas o paciente possui suficiente organização pessoal para elaborar defesas diferentes das que caracterizam a esquizofrenia propriamente dita” (Loparic, Z., 2026). “Essas defesas são baseadas em aquisições maturacionais e técnicas de autocuidado posteriores ao período de EU SOU” (Loparic, Z., 2026). Com este trabalho, Loparic pretendeu dar a palavra a Winnicott de forma articulada, uma vez que “a análise estrutural do paradigma winnicottiano permite uma leitura renovada dos casos fronteiriços” (Loparic, Z., 2026).
Joana Espirito Santo
