Adolescência

“Esta é uma fase que precisa ser efetivamente vivida, e é essencialmente uma fase de
descoberta pessoal. Cada indivíduo vê-se engajado numa experiência viva, num
problema do existir.” Winnicott, D. (2023)
A Adolescência quer-se tempestuosa, intensa e comunicativa de uma certa instabilidade subjetiva que acaba por ter impacto na realidade compartilhada.
Há muita coisa a acontecer num ser adolescente que deixa para trás um período de latência e se vê a braços com tantas e tão rápidas mudanças ao nível psicossomático e que o obrigam a reintegrar-se no espaço e no tempo, assim como a apropriar-se de um novo corpo e de uma nova instintualidade, que saudavelmente se revela indomável.
Nasce, na saúde, uma nova força capaz de desbravar caminho como nunca antes aconteceu, e capaz de pôr em prática o que outrora cabia apenas ao mundo da fantasia.
Já não é só a constituição do “Eu sou” que importa. É também, e acima de tudo, um “Eu Sou no Mundo” que procura afirmar-se e confirmar-se.
Se o “Eu” estiver bem sustentado por um ambiente seguro e suficientemente previsível, o adolescente será então capaz de ter a coragem de desbravar o seu próprio mundo em busca de uma vida adulta amadurecida.
A adolescência dá trabalho. Um adolescente vivo questiona, tem dificuldade em lidar com ambivalências e não aceita falsas soluções; dificilmente lhe serve a experiência do adulto para mapear a sua viajem. Ao mesmo tempo, assinala uma certa dependência que deve também ser acolhida. É uma fase do amadurecimento bastante confusa e não raras vezes, difícil para os pais.
Para Winnicott, esta confusão é sinal de saúde e cabe aos pais sobreviver-lhe durante o tempo necessário, para que a mesma tenha uma rede de suporte, podendo assim encontrar esclarecimento (no tempo). Mas esta rota é ainda desconhecida para o adolescente, que tudo arrisca na procura por si próprio.
Tal como um bebé na dependência absoluta, também o adolescente precisa de reviver a ilusão de omnipotência que lhe confirma que a vida lhe faça sentido.
A adolescência pode dar um enorme contributo à sociedade, com a sua vitalidade e criatividade. Para isso, é preciso que esta seja constituída por adultos amadurecidos, que não se assustam e que a sustentam o viver adolescente; adultos capazes de revisitar as suas adolescências, sem, com isso se confundirem numa adolescência que já não é a deles.
Helena Mourão
