Ética do Cuidado, Democracia e Suas Ameaças
“(…) apenas uma parte dos indivíduos num grupo social
vai ter a sorte de se desenvolver até à maturidade (…)”
Winnicott, 1950
“ (…)parece estar a verificar-se, em múltiplas sociedades contemporâneas de tradição democrática, e em múltiplos grupos sociais atuais, uma tendência e viragem para regimes de cariz totalitários ou regimes marcadamente ditatoriais.
O que move cidadãos a abdicar da sua liberdade de pensamento e de escolha para seguirem um único líder, elegerem de livre vontade um clã como representante totalitário de uma única voz, ou indo um pouco mais longe, escolherem uma única possibilidade de Ser?
“(…) a teoria de amadurecimento pessoal comporta também uma teoria de amadurecimento social e que associado ao cuidado presente no processo de amadurecimento estará “a origem do desenvolvimento da capacidade para o senso ético do indivíduo humano” (Garcia, 2011). Seria deste senso ético do cuidado que surgiriam os pilares fundamentais da constituição e preservação da sociedade democrática.
A perspectiva winnicottiana considera que a criação e desenvolvimento de um ser individual saudável e maduro partiria da possibilidade do acesso ao cuidado “ tanto o cuidado inicial que todo bebé humano necessita para poder amadurecer como o cuidado que em um determinado estágio de amadurecimento o bebé começa a ter em relação à pessoa que cuida dele (…)” (Garcia, 2011).
Seria, então possível a construção de um sentido ético do individuo humano.
Significa assim que, para Winnicott, a ética do cuidado encontrar-se-ia associada à possibilidade de saúde e de seres humanos maduros mas também ao desenvolvimento de indivíduos mobilizados para a construção de grupos maduros e, portanto, democráticos.
Assim, uma determinada proporção de indivíduos maduros, concernidos e saudáveis surgiriam como os guardiões da tendência democrática inata e os garantes da máquina democrática.
O voto amadurecido seria um voto numa pessoa vista como pessoa total e não o voto num partido ou numa tendência grupal.
Como entender que a preservação da máquina democrática seja posta em risco pelos próprios indivíduos a compõem?
Quando verificamos uma viragem para regimes totalitários com a escolha de um líder de cariz ditatorial dentro da democracia significaria que teria existido uma perturbação na ética do cuidado exercida no crescimento maturacional individual e que daí adviria um maior número de indivíduos imaturos?
Parece-nos que considerar apenas como fator decorrente dos regimes ditatoriais a existência de um maior predomínio de indivíduos imaturos poderá ser uma visão simplista de uma questão multifactorial e tão complexa como esta.
E seria também partir do pressuposto de que os indivíduos maduros se mantêm estáveis no seu processo de amadurecimento ao longo da vida e para além das alterações contextuais. Ora sabemos bem, e o próprio Winnicott indica, que as tarefas maturacionais não são aquisições estanques e que, por múltiplos fatores, pode verificar-se regressões a estados maturacionais anteriores.
No seu texto “Algumas Considerações sobre o significado da palavra Democracia” Winnicott aponta uma direção neste sentido quando refere que “alguns dos indivíduos saudáveis em tempos de paz tornam-se anti-sociais aquando da guerra (opositores de consciência), não por cobardia, mas por genuína dúvida pessoal: do mesmo modo, os anti-sociais do tempo de paz enchem-se de coragem quando da guerra. Quando uma sociedade democrática entra em guerra (…) é o grupo inteiro que vai à luta; seria muito difícil identificar um caso de guerra conduzida pelos mesmos indivíduos que, na paz, constituem o fator democrático inato da comunidade” (Winnicott, 1950).
E se considerássemos a hipótese de que a viragem dos regimes democráticos em regimes ditatoriais poderia advir exatamente dos mesmos indivíduos que, num determinado momento histórico, foram suficientemente maduros para a eleição de um líder que preserva os valores democráticos e noutro momento, sujeitos a um processo de regressão maturacional, permitiram e promoveram a viragem desse mesmo regime para um regime ditatorial?
Será caso que, o indivíduo maduro, pode regredir no seu processo maturacional quando vê o exercício ou acede a um lugar de poder? Não resiste ao fascínio do poder? Quer pelo exercício, quer pela associação ao líder “forte”? Construirá o indivíduo maduro a sua própria contradição não querendo, no plano da consciência e da realidade, a figura do ditador, mas não abdicando, em simultâneo, ao nível subjetivo da força e da omnipotência do líder poderoso?
“(…) sabemos que serão inscritos na história estes tempos sombrios onde, em plenas democracias, governam líderes ditadores responsáveis diariamente e continuamente pelas violações de direitos humanos, perdas de vidas humanas e massacres de povos em massa. Se esta é a inscrição a ficar na história que, pelo menos, possa ser acompanhada pela tentativa de indignação face a esta Democracia Ditatorial.”
Rita Pereira Marques

